Para entender o Oriente Médio: uma conversa com Luiz Antônio Araujo | StudioClio

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Para entender o Oriente Médio: uma conversa com Luiz Antônio Araujo

Enviado por StudioClio - At..., sex, 03/07/2015 - 14:37
“Dizer que o Islã está se armando, atacando na França e na Tunísia, dá a ideia de que o Islã seja uma coisa só, inerentemente violento, inimigo das liberdades, cruel. E isso é uma ilusão. Seria interessante se um grupo religioso, nacional ou étnico tivesse o monopólio da crueldade, mas, infelizmente, ela é uma franquia humana”.
 
Falar sobre o Oriente Médio é necessário e urgente. A região, outrora vista como o berço da civilização, se transformou na região mais turbulenta do mundo. No mês de setembro, o jornalista Luiz Antônio Araujo, colunista de assuntos internacionais desde 2012, conduzirá o curso “A invenção do Oriente Médio”, buscando uma compreensão das suas diferentes entidades nacionais, políticas e culturais. Conversamos com Luiz, que falou, sob um viés amplo e histórico, sobre questões atuais, como o conflito israelense-palestino, o desenvolvimento da bomba atômica no Irã e os atentados recentes do dia 26 de junho. 
 
StudioClio – Tu falas, em um texto recente, que em meados dos anos 1990 o mundo pareceu se “desinteressar” pelo Oriente Médio. Houve uma época em que se acreditava em um contexto pacífico entre israelenses e palestinos. Como isso mudou tão drasticamente e em tão pouco tempo?
Os anos 90 são um período em que o mundo deixa de prestar atenção no Oriente Médio porque havia questões mais importantes para se resolver: a reorganização do mundo após o fim da Guerra Fria, a unificação da Alemanha, o fim da União Soviética e sua transição para o capitalismo – algo extremamente importante para os EUA e Europa Ocidental. No OM, as coisas pareciam se encaminhar para uma solução. Foi nesse ambiente que a rede Al Qaeda, recrutando elementos da Arábia Saudita e do restante da Península Arábica, do Egito, da Jordânia, do norte da África, decidiu ocupar um espaço e atacar o país que representava aquilo que o Bush Pai chamou de “nova ordem mundial” e isso, de alguma forma, acabou impactando tudo aquilo que estamos vivendo hoje.
 
SC – E como tu analisas o cenário de conflito Israel-Palestina hoje?
O mundo vive uma situação em que os velhos ordenamentos estão postos em questão sob o impacto de uma grande crise econômica, que se abre em 2007, nos países ricos, que deveriam liderar a economia mundial na era da globalização para um momento inclusivo e solidário. Essa crise é determinante: os velhos e novos conflitos ressurgiram em uma dimensão que ninguém previu. Um deles é o israelense-palestino. O Processo de Paz de Oslo, delineado em 1994, que apontava para uma solução de dois Estados, estagnou-se, morreu. Está fora de debate porque Israel não considera a possibilidade de reconhecimento de um Estado Palestino e os palestinos estão suficientemente divididos e sem perspectiva de criar o próprio estado, na medida em que nem a Autoridade Palestina, nem o Hamas são uma alternativa. É um impasse que parece não ter nenhuma solução de curto prazo. Os palestinos avançaram no seu processo de pedido de reconhecimento do seu Estado, mas, para todos os efeitos práticos, ele não existe: não há fronteiras ou direitos para uma boa parte da população. Existe um sistema de ocupação por parte de Israel. A Faixa de Gaza, como mostrou a guerra do ano passado, é um grande gueto a céu aberto, cuja população está exposta às maiores privações que se possa imaginar. A solução, hoje, é algo urgente do ponto de vista da comunidade internacional. 
 
SC – Parece haver uma polarização da opinião pública. Por que isso acontece?
O mais curioso é que quando falamos de “vilão” ou “pró-isso” e “pró-aquilo” é que tanto a atual liderança israelense como a atual liderança palestina não são exatamente aquilo que poderíamos chamar de tradicionais. O Estado de Israel foi fundado com uma visão socialista de mundo. Acreditava-se no poder redentor de retorno à agricultura com um país com base em unidades de produtores autônomos organizados em fazendas – os kibutz. A grande expressão desse movimento era o Partido Trabalhista, que foi, até os anos 70, o único governo conhecido por Israel. Também no caso do movimento palestino, a primeira liderança que reivindicou a representação desse povo era uma liderança profundamente influenciada pela ideia de revolução nacional, de libertação e socialismo. Hoje em dia, em Israel, o governo é exercido por um grupo que teve um papel marginal durante 30 anos na história. É uma corrente que pode ser chamada de sionista-nacionalista de direita e que nunca teve nenhuma outra visão para o Estado de Israel que não fosse de força, de ocupação de território, mesclada com uma visão religiosa a respeito do povo judeu como legítimo aspirante à soberania no território da Palestina histórica, como definida em termos bíblicos. O país foi criado contra a vontade da maioria das correntes religiosas judaicas porque a ideia de uma pátria judaica na Palestina antes da vinda do Messias era algo escandaloso, herético, absurdo, imoral. Porém, com o Holocausto, os judeus não tinham mais como viver na Europa. Mesmo depois do fim da Guerra, quando muitos tentaram retornar para a casa, foram massacrados. As cotas de imigração nos EUA só se abriram nos anos 1950. O caminho para a imigração para a Palestina foi natural. Os árabes, evidentemente, viam a imigração judaica como uma conspiração para ocupar uma terra que não era sua. 
 
SC- Israel teme que as relações entre Irã e EUA permitam o desenvolvimento de uma bomba atômica. Como tu encaras essa possibilidade? 
O atual governo norte-americano percorreu um caminho pelo qual, cumprida uma jornada muito longa de sanções, não foi possível deter o programa nuclear iraniano. O Irã é um país que conta com uma receita significativa de petróleo que, nos últimos anos, enfrentou queda de preço, fragilizando o conjunto da economia iraniana. O que o Obama percebeu foi que esse era o momento de oferecer uma proposta que o Irã não pudesse recusar. O caminho que já foi aberto representa um passo para a abertura quase que completa da casa. Como, neste momento, este programa é desenvolvido por um regime teocrático, representado pelo líder supremo e autoridade máxima da república islâmica, para estes setores, só se pode acabar com o programa nuclear iraniano se derrubar o regime e, para fazê-lo, é preciso aniquilar o programa. Ou seja: é preciso ter uma solução final. Não se trata de saber se o Irã poderá ter uma arma nuclear ou não. A questão é: como impedir o Irã de sequer pretender chegar lá? Como mostrar ao Irã que obter uma arma nuclear operacional será contraproducente na medida em que terá consequências muito piores a médio e longo prazo? 
 
SC – Como enxergas as perspectivas econômicas do Irã com o fim das sanções? 
O Irã é um país que, asfixiado pela política de sanções, precisa desesperadamente equilibrar o seu balanço de pagamentos. Precisa de remédios, de tecnologia para a sua indústria, componentes eletrônicos. Basta dizer que o comércio mundial está em um momento de declínio. Todos os países estão procurando parcerias: os EUA e o MERCOSUL estão negociando um acordo comercial com a União Europeia. A China está investindo na África e na América Latina. As sanções são um obstáculo a isso. E o Irã é um mercado significativo. É um país grande, educado, com índice de alfabetização muito elevado, considerando o OM. Qual país não gostaria de ter acesso a um mercado como esse? 
 
SC – Consegues perceber uma ligação entre os últimos atentados (no Kuwait, na Tunísia e na França no dia 26 de junho)?
Se há uma ligação, é o fato de que aconteceram em um dia significativo, religioso, mas por razões muito distintas. O atentado no Kuwait foi provocado por um braço do EI, o que não é a mesma coisa que uma organização nacional. O EI é um grupo que existe, de fato, operacionalmente na Síria e no Iraque. Em outros países, há grupos que dizem pertencer ao EI, mas que nunca viram ninguém desse grupo, a não ser em fotos. Às vezes, são pessoas que sequer falam árabe. No caso do Kuwait, um atentado contra uma mesquita xiita, contra árabes e muçulmanos, é parte de uma luta sectária dentro da península arábica em torno da questão de xiitas e sunitas. No caso da Tunísia, claramente foi um alvo ocidental. O EI reivindicou o ataque, mas já sabemos que os atiradores são não têm importância do ponto de vista hierárquico – são soldados rasos que conseguiram provocar a morte de muita gente. No caso da França, que seria, potencialmente, o ataque mais ousado, por ter sido em uma usina de gás, claramente o individuo que perpetrou o ataque era um cidadão francês, visto como um francês legítimo, ainda que pobre, filho de pai argelino e mãe marroquina, mas, do ponto de vista da sociedade e lei francesas, à parte a questão cultural e econômica, era um cidadão no pleno exercício dos seus direitos de cidadania. Um ataque isolado, provavelmente por um processo de radicalização.
 
SC – E esses processos são crescentes.
São crescentes e não necessariamente coordenados. É importante lembrar que não se trata de um processo restrito ao OM. O FBI já disse que nos últimos anos a grande ameaça terrorista no interior dos EUA vem de grupos de extrema-direita. É uma conspiração? Não. Não há nada que indique uma conspiração da extrema-direita para matar o presidente ou para derrubar o governo ou para instaurar um governo. O que existem são os chamados “cidadão soberanos” –norte-americanos libertários de direita que fazem questão de se armar, se recusam a portar uma carteira de identidade ou ter placas nos carros por considerar que o Estado não pode exigir isso.
 
SC – Lembra o caso do rapaz que fez o atentado à Igreja Batista e matou nove negros.
É interessante lembrares isso. O governo da Carolina do Sul acaba de autorizar uma manifestação da Klu Klux Khan, uma organização que muitos diziam não existir mais, que acaba de se habilitar a fazer uma manifestação no centro de Columbia em favor da preservação da bandeira confederada. Nos EUA se pressupõe que uma manifestação faz parte do direito à liberdade de expressão. Provavelmente vão render homenagem aos confederados, e lembrar como era boa a época da segregação. É uma conspiração? Não, mas não podemos analisar essas coisas como se elas não tivessem alguma conexão. Existe uma ligação tênue. O grande problema é que a retórica da guerra ao terror, muito forte durante o governo do George Bush, e que foi relativamente abandonada pelo Obama, ainda presente no discurso do governo israelense, não responde a essa realidade. Dizer que o Islã está se armando, atacando na França, na Tunísia, dá a ideia de que o Islã seja uma coisa só, inerentemente violento, inimigo das liberdades, cruel. E isso é uma ilusão. Seria interessante se um grupo religioso, nacional ou étnico tivesse o monopólio da crueldade, mas, infelizmente, ela é uma franquia humana. 
 
SC – E essa questão da ilusão vai ser abordada no curso?
Sim, e o mais interessante do curso vai ser permitir abordar o OM de uma perspectiva de longa duração. Ou seja: permitir que tratemos o OM como uma região que, dentro dessa concepção, não foi sempre a mesma coisa. Houve um período da história em que o mundo islâmico foi muito mais tolerante, educado, patrocinador da ciência, da filosofia e do conhecimento do que o mundo europeu. Durante a Idade Média, o Islã floresceu e se desenvolveu, permitindo uma atividade cultural e artística que não tinha paralelo com nenhuma outra região do mundo, com a possível exceção da China. Hoje falamos sobre o assunto com uma segurança muito grande, mas, do ponto de vista da sociedade europeia, o OM já foi muito mais próximo do que é hoje, e também já foi muito mais distante. 
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