Ouvir para contar: um bate-papo com Leticia Wierzchowski | StudioClio

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Ouvir para contar: um bate-papo com Leticia Wierzchowski

Enviado por StudioClio - At..., qui, 27/08/2015 - 11:03
A paixão de Leticia Wierzchowski pela escrita fica evidente quando ela fala sobre o ofício. Os olhos brilham, o sorriso se alarga. O carinho pela literatura veio cedo: para ela, escrever é terapêutico, lúdico, necessário. Mais do que uma leitora voraz, ela sempre foi ouvinte atenta, alerta para histórias curiosas, que, em sua cabeça, ganhavam conteúdo e forma. Após ter 16 obras publicadas, Leticia prepara-se para lançar o seu mais novo trabalho. Sob o título provisório “O menino que comeu uma biblioteca”, a história resulta da união de dois enredos diferentes, originalmente pensados para serem lançados como independentes e que acabaram se cruzando no Uruguai. Autora de Sal, Navegue a lágrima e de A casa das Sete Mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo, a consagrada escritora empolga futuros escritores durante as aulas que tem ministrado no StudioClio. Em novembro, acontece mais uma edição da oficina “A alegria da escrita”, voltada aos que buscam saber mais sobre elementos narrativos e contextos literários.  
 
Recentemente, falaste que estás trabalhando no enredo de um novo livro. O que é possível adiantar sobre a história?
Neste novo livro, eu misturo um pouco histórias que o meu avô contava com a história de uma personagem que eu já vinha desenvolvendo em outro romance. Eram livros diferentes, mas eu achei que seria interessante unir os dois. O primeiro enredo é sobre a Eva, uma jovem cartomante humilde. Habitante de um povoado uruguaio, ela se apaixona pelo tarô, herdado pela avó, embora não acerte muito nas previsões (risos). Ela começa a ver, de forma mística e recorrente, um menino que desperta bastante a sua curiosidade. Trabalhando como camareira no Hotel L’Auberge, em Punta del Este, ela conhece um polonês que sobreviveu aos campos de concentração durante a Segunda Guerra. Ao se apaixonar por ele, Eva descobre que, na verdade, ele era o menino que ela acompanhava há tanto tempo pelas cartas do tarô. Temos, ainda, a história paralela desse personagem: um garoto que vivia em uma aldeia polonesa com o avô, um homem completamente apaixonado por livros. Era um professor universitário aposentado e um grande leitor, com uma biblioteca imensa, que ensina o menino a amar os livros. Quando eclode a Guerra e os alemães invadem a Polônia, a primeira providência é acabar com a inteligência do país, recolhendo esses professores e outras pessoas influentes. O avô, então, desaparece sob estas circunstâncias. O menino, órfão, começa a vender os livros do avô e isso gera mil histórias que culminam na ida dele para o Uruguai. A ideia aqui é mostrar que o menino só vai sobreviver em função do seu amor por livros. Estou evitando spoilers (risos), mas é uma história de amor, uma fábula quase. “O menino que comeu uma biblioteca” é o título provisório. É interessante notar que quando conto sobre este massacre dos poloneses durante a Segunda Guerra falo também sobre a minha própria família. Não somos judeus, mas metade morreu durante a Guerra, na resistência, em incêndios de fazendas...
 
E quais são outras fontes tuas de inspiração?
Não é nada muito lógico ou cerebral: as coisas vão se encaixando. Eu falo isso durante as aulas: escrever um romance é algo permeável e orgânico. Às vezes temos uma ideia e de repente esbarramos em algum complemento imprevisível. Mas é claro, todos os enredos têm um começo. No caso de Sal, por exemplo, eu queria escrever um romance de família. Esses núcleos familiares são microcosmos com mil histórias, situações e interações. Aí eu resolvi transpor a história para o Uruguai. O escrever, para mim, é uma forma de se teletransportar. Pensei comigo mesma “em qual lugar eu gostaria de estar agora?”. A resposta foi no Uruguai (risos). É um lugar com muito significado para mim. Juntou um amor por determinada paisagem – a questão da paz, do silêncio do lugar -, com uma história pré-estabelecida. Então eu vou misturando tudo. Quando necessário, claro, eu faço um extenso trabalho de pesquisa, como foi o caso da Casa das Sete Mulheres e Ponte para Terebin.
 
E por que o Uruguai? Por que o Hotel L’Auberge?
O Hotel L’Auberge, que vai aparecer bastante neste novo livro, é um estabelecimento que realmente existe no Uruguai. Um lugar que começou como uma casa de chá, onde as pessoas que iam para a Praia Brava e Punta paravam antes de voltar para Montevideo, quase como uma tradição. Havia uma torre de água que abastecia as poucas fazendas da região e os donos serviam waffles belgas e chá. Quando a Guerra eclode, essa região acaba ganhando bastante dinheiro e proeminência porque muitas pessoas viajavam de navio para a Europa, mas, na época, essas viagens transatlânticas ficaram inviáveis, pois o Eixo explodia navios de passageiros. As pessoas começaram a evitar esse tipo de viagem, o que gerou um turismo na região sul. A dona fundadora do L’Auberge, de alguma forma, se beneficiou disso. Quando a guerra termina, ela conhece um judeu belga que sobrevive à Guerra e eles se casam, ampliando a casa de chá para um hotel. E hoje é um dos hotéis mais famosos da América do Sul e um dos mais antigos e clássicos. Há muitos anos atrás, me chamaram para fazer uma matéria sobre Punta. Eu entrevistei o dono, que já é da terceira geração de herdeiros do hotel, e rendeu bastante. Os uruguaios são extremamente amáveis. Eu passei, então, um verão inteiro indo até lá e ouvindo as histórias das camareiras, dos gerentes... fotos, mapas, a evolução do hotel. Foi neste contexto que o projeto do livro surgiu. 
 
Em aula, falas bastante sobre a construção dos personagens. Como funciona este processo pra ti?
É um crescente. Primeiramente, nós temos de nos apropriar do personagem. O Erico Verissimo falava “eu tracei um plano para os meus personagens, mas chegou um ponto em que eles começaram a fazer as coisas por conta própria”. Eu acredito nisso: tu tens que criar intimidade com um personagem. Ficar cinco anos estudando a vida de alguém é uma coisa, mas pegar o que está escrito e criar uma coisa nova a partir disso é outra. Para dar vida, é como conhecer e se apaixonar uma pessoa. É necessária uma convivência. Por isso, às vezes, o escritor tem de reescrever e reescrever até dominar mesmo o personagem. Claro que é intuitivo, mas existem caminhos que as pessoas devem evitar. A literatura convencionou certos padrões, mas é possível quebrá-los. No início, eu recomendo ter alguns caminhos em mente. A teoria é importante: gosto de mostrar ideias que deram certo e outras que não funcionaram muito bem. O autor vai ganhando certa percepção do que funciona para escrever um livro. 
 
Quais são teus planos para o futuro? 
Eu ainda quero fazer uma continuação para terminar A Casa das Sete Mulheres. Um dia vai ter um fim, este era o objetivo quando eu deixei o livro dois em aberto. Mas eu quis deixar passar um tempo. Fico feliz pelo sucesso, mas é um assunto que cansou um pouco pra mim. Eventualmente eu penso sobre esse fim, uma hora surge. É isso: tu fica com aquele pensamento ali e de repente surge um start, e tu volta a pensar sobre.
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