Entrevista com a pianista polonesa Magdalena Cionek | StudioClio

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Entrevista com a pianista polonesa Magdalena Cionek

Enviado por studioclio, seg, 27/10/2008 - 17:45

Residente no Brasil desde 2001, a pianista e tradutora polonesa Magdalena Cionek trabalha junto ao Consulado Geral da República da Polônia em Curitiba. No mês em que se comemora os 90 anos da independência da República da Polônia, ela se apresenta pelo Brasil ao lado da violoncelista Evva Mizerska em recital que chega ao StudioClio no dia 9 de novembro, domingo, às 20h, no StudioClio (reserve o seu lugar). Em entrevista por e-mail, Magdalena fala da história e da cultura de seu país de origem, de sua trajetória e de como a morte repentina do violoncelista Zygmunt Kubala a fez retomar sua dedicação à música.

Por Ana Laura Freitas e Felipe Schroeder Franke

Qual a importância desta comemoração de 90 anos para a Polônia?

Na verdade, a Polônia é um país com história milenar – história de grandeza, de poder, de conquistas, mas também de problemas, divisões, conflitos e crises. No final do século XVIII, a República das Duas Nações (a Polônia e Lituânia unificadas) sumiu do mapa da Europa e do mundo, partida entre os três países vizinhos: Rússia, Prússia e Império Austro-Húngaro. Durante 123 anos, a nação polonesa sobreviveu sem estado, sem seu próprio país. Mas, como diz o nosso hino nacional (original daquela época): "A Polônia ainda não morreu, enquanto nós (poloneses) vivemos". O final da Primeira Guerra Mundial – dia 11 de novembro de 1918 – trouxe a tão esperada independência. Para os poloneses, esta comemoração é um sinal visível do que uma nação, ciente da sua tradição e orgulhosa da sua herança, é capaz de alcançar tudo o que deseja.

Como você avalia o intercâmbio cultural (existente e possível) entre Polônia e Brasil?

Com a entrada da Polônia na União Européia, o interesse pela Polônia e sua cultura aumentou muito no Brasil, talvez pelo fato de que temos tantos descendentes aqui! É bom observar que a cultura polonesa não é limitada somente à dança folclórica e gastronomia tradicional. Não estou menosprezando esse aspecto, mas sei bem quão rica e diversificada é a nossa cultura. Percebo que existe grande interesse pela música, pelo cinema polonês, pela literatura e artes plásticas polonesas, não somente entre os descendentes poloneses!

Mas poderia ser feito ainda muito mais: temos muitos artistas, especialmente os jovens, no início da carreira, que viriam para o Brasil com maior prazer. E, por outro lado, existe interesse lá, na Polônia, pela exótica cultura brasileira. O ideal seria ter algum instituto cultural ou departamentos de cultura nos próprios consulados que pudessem lidar com todos os assuntos de intercâmbio cultural e educacional, incluindo informações, organização, divulgação e levantamento de recursos. Já sabemos que algumas faculdades brasileiras fecharam contratos bilaterais com faculdades polonesas. Em Curitiba, estamos com plano de incluir professores poloneses na Oficina de Música a partir de 2009 e temos planos de comemorações especiais do Ano de Chopin em 2010... Havendo interesse e dedicação de ambas as partes, pode ser feito muito mais, e acredito que com proveito para todos!

Qual o papel da música de artistas como Chopin, Szymanowski e Karlowicz na elaboração de uma identidade nacional polonesa?

Como disse acima, por várias gerações, os poloneses conseguiram manter sua identidade nacional graças à preservação e cultivação do idioma, das tradições e da cultura. Estes compositores viviam na época da partilha ou na época da Polônia "ressuscitada" (Szymanowski). Chopin se tornou o ícone nacional. Temos muito orgulho desse grande compositor: "Polonês – de coração, e pelo talento – cidadão do mundo". A música de Chopin é muito próxima ao coração de imigrante, pois expressa e simboliza as lembranças do país de infância, a saudade da pátria e dos familiares, os sonhos de liberdade e recuperação e a esperança de que este sonho possa realizar-se um dia. E isso é tão forte que a música de Chopin foi proibida na Polônia pelos nazistas na época da Segunda Guerra Mundial! Os Alemães sabiam bem o significado e a influência dessa música no espírito nacional dos poloneses.

Qual é sua trajetória na música?

A música sempre fazia parte da minha vida. Eu dormia com a música dos discos e lembro que minha mãe cantava, muito, e bem. Comecei a estudar piano com seis anos de idade, como um passatempo. Mas logo a música entrou na minha rotina: eu chegava da escola para casa, almoçava e corria para a escola de música, onde tinha cada vez mais e mais aulas. E assim foi por 12 anos. Consegui passar, na primeira tentativa, nos exames-concurso e ingressei na Academia de Música em Varsóvia. Estudei piano com a professora Bronislawa Kawalla, e a música de câmara com professora Bárbara Halska. Porém, logo percebi que a Academia em Varsóvia não era exatamente o que eu queria: o nível de ensino era realmente altíssimo, mas existia algum tipo de concorrência selvagem entre os estudantes e professores. Era uma corrida maluca para se destacar, para se sobressair. Eu não me sinto bem em competições e não queria me tornar mais um "arrebentador de cordas", queria fazer algo significante, talvez sem muito aplauso e barulho, mas algo que fizesse a diferença. E talvez seja por isso que, com tanta facilidade, depois do terceiro ano, pedi a licença da faculdade, embora convencida de que não iria voltar mais: fui para o Brasil (atrás de um brasileiro de origem polonesa...) e, do Brasil, para os Estados Unidos.

Morei quatro anos nos Estados Unidos, e lá terminei os estudos (no Western Michigan University, com a profa. Dra. Silva Roederer). Infelizmente, pelas diferenças no sistema educacional entre a Polônia e Estados Unidos, poucos créditos da Polônia foram aproveitados para a minha graduação nos EUA. Mesmo assim, não me arrependo, porque esse tempo na faculdade americana foi muito rico em experiências: além de piano e matérias teóricas, tive que experimentar também órgão, cravo, regência, composição, sem dizer de inúmeras oportunidades para acompanhar classes de canto (é impressionante o quanto nós, pianistas, podemos aprender com os cantores!), tocar com vários corais e orquestra. Voltei para o Brasil em 2001 e, desde lá, tenho dado aulas particulares, participado das oficinas e festivais de música como acompanhadora e realizado vários projetos e concertos. 

Como conjuga uma carreira musical com as atividades no consulado e de tradução nas línguas polonesa, portuguesa e inglesa?

Essa conjugação não é fácil... A tradução, que faço desde que comecei a aprender os idiomas, é uma tarefa fascinante, além de ser uma fonte adicional de renda. O trabalho no consulado surgiu quando procurei apoio para um projeto de música polonesa: naquela época, o consulado precisava de mais uma funcionária com polonês e português fluente. No início, trabalhei somente com prestação de serviços, mas, há dois anos, quando fui contratada no período integral e, então, manter atividades musicais, trabalhar e ainda cuidar da família tornou-se muito difícil. Eu já estava abrindo mão da música, cada vez mais desanimada pelas dificuldades.

No ano passado, aconteceu algo que me fez refletir muito, e que me puxou de volta para a música. No mês de abril, organizamos em Curitiba um recital em comemoração a Ano de Szymanowski, com a participação do professor Zygmunt Kubala. Nessa ocasião, conversamos bastante, e eu não conseguia esconder a minha frustração por não ter mais forças para manter as atividades de música. Quando, alguns meses depois, ele me convidou para substituir seu acompanhador num recital em Ouro Branco, não resisti ao convite...

Infelizmente, foi o último concerto que o professor Kubala fez: em resultado de acidente de um aneurisma, ele faleceu logo no início do concerto... Não preciso explicar como esse acontecimento me chocou e impressionou, ainda mais porque tudo o que o professor falou comigo nesses dias tinha um tom de despedida, como se ele pressentisse a morte. E uma das coisas que marcaram foi quando, depois de um ensaio, ele falou: "você tem talento, mas se esconde nesse consulado".

Então fiz a promessa para mim mesma de não me esconder mais e não desistir. Para começar, convidei a minha amiga de infância, a Ewa, para este ciclo de recitais de música de câmara. Obviamente, de música polonesa, para piano e violoncelo, em singela homenagem ao grande amigo, Professor Kubala.

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